Definição de Avô

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realidade

Definição de Avô

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realidade

aqueles acasos da vida.

 

nós nos conhecemos em uma época meio louca, mas muito boa. eu tinha acabado de voltar de curitiba e tinha saído da fase “odeio porto alegre e quero voltar pra curitiba agora” e ido direto pra fase “eu amo essa cidade, amo meus amigos, meu deus como não vi isso tudo antes?”. então durante a semana eu ia tomar café pelos cafés do bom fim, sucos na lancheria do parque, fazia caminhadas fotográficas  pelos bairros próximos e nos finais de semana eu ia pra mesma casa noturna encontrar todo mundo, toda sexta-feira e sábado, sagrados. ás vezes a gente ia pra casa de alguém antes se arrumar e beber um pouco, ás vezes era aqui em casa mesmo, ás vezes em algum bar, ás vezes a gente se encontrava lá mesmo… na volta quase sempre voltávamos juntos a pé até a primeira padaria aberta pra tomarmos café da manhã juntos e na maioria das vezes alguém dormia na minha casa, ou ao menos me trazia até em casa. mas também tinham as vezes que eu saia de casa sozinha, pegava um taxi, não marcava com ninguém, chegava na tal casa noturna e encontrava todo mundo ou algumas poucas pessoas. foram raras as vezes que não encontrei nenhum conhecido na pista, porém, essas foram as mais divertidas. como eu era amiga de todo staff da casa, dos donos aos seguranças, sempre preferia ficar sentada no bar ou perto da cabine dos djs. 

lembro que essa era a semana do carnaval e a cidade ficou vazia, eu tava sentada no bar e do nada comecei a conversar com um menino sobre um assunto qualquer. um tempo depois, minha amiga chegou e perguntou da onde a gente se conhecia e nos apresentou. ele era um amigo dela de outro estado que tinha vindo morar aqui. nunca mais na vida consegui chamar o menino pelo nome dele depois que ela me contou esse fato. a gente saiu da festa cantando, conversando, pulando e já combinamos mais outras. muitas outras. e assim foi… nos conhecemos aquele dia e inexplicavelmente surgiu uma conexão tão forte que a gente não se separou mais. até que a vida nos separou. minhas aulas começaram, o trabalho começou, o tempo acabou e foi cada um para um lado. um dia caminhando de noite pela cidade, encontrei o dani sentado em um bar com uma amiga. ele insistiu pra eu sentar junto e insistiu pra que eu saísse com eles. tive que ir na casa dele buscar uma camiseta dele emprestada e deixar a minha lá, já que eu só tinha saído pra caminhar… depois disso, o dani foi morar um tempo fora e dar um up na carreira. virou alguém importante e a gente parou de se falar de novo, mas o facebook tava sempre ali. um dia a gente se encontrou numa festa do cinema. quer dizer, ele me encontrou. e eu nem sei explicar a sensação de receber o abraço dele. mas de novo, o dani ia ir viajar pra outro país por um tempo e dessa vez nem sabia quando ia voltar e eu… bom, eu ainda precisava acabar a faculdade, então ia ficar por aqui mesmo. hoje me deu saudade do dani e eu deixei um recado pra ele resmungando sobre minha saudade. a surpresa foi que ele respondeu na hora que então era pra gente marcar algo, porque ele voltou a morar aqui e melhor ainda, pertinho da minha casa. 

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pra ela: a dura realidade era não conseguir ficar em casa numa sexta-feira.

Eram 3h da manhã de uma sexta-feira em que ela tinha decidido ficar em casa. Havia cansado de gelo seco, chegar de manhã e acordar de ressaca, gastar com bebida, padê e sempre sair de casa sem saber se iria voltar viva, pois sabia que não acabaria a noite em condições de dirigir. Odiava televisão, mas tentou assistir durante algum tempo. Desistiu. Os dvds que tinha locado, já tinham sido assistidos e ela não estava com cabeça pra ler nenhum livro. Sabia que não iria ter nada pra fazer na internet, mas mesmo assim tentou o msn. Em vão. Não sabia mais o que fazer. Acendeu um cigarro e foi na janela. Pensou na vida, nos problemas, na música dos Smiths que tocava no mp3. O cigarro acabou, jogou pela janela e ficou olhando ele cair do 14° andar pensando que até o cigarro estava na rua numa sexta-feira, apagando no movimento e ela estava em casa tentando ser responsável consigo ao menos uma noite do ano. Foi no espelho olhar nos próprios olhos e descobriu que aquela não era ela. A camiseta velha da ex-namorada que ela usava de pijama, o esmalte claro dos pés descalços, as pernas pra depilar, a calçinha que tinha ganho da mãe no natal e dizia “game over” na bunda. O cabelo bagunçado e sujo, sem maquilagem alguma e as unhas das mãos por fazer. Foi na cozinha e abriu a geladeira com esperança de achar algo alcoolico pra salvar a noite, mas nada. Impossível, ela sempre tinha vodka ou cerveja, era a primeira coisa que comprava quando entrava no mercado, junto com os 2 packs de cigarro. “Buceta, alguém bebeu tudo e não me avisou”, pensou quando viu a geladeira vazia. Voltou pro quarto, olhou pra mesa do computador. Tinha fumado 40 cigarros desde as 19h da noite, quando decidiu não sair. O cinzero transbordava, no lixo tinham toddynhos, papel de chocolates, um saco de doritos, uma garrafinha de água mineral. Água mineral. É, definitivamente aquela ali não era ela, e tinha algo errado naquela sexta-feira. Sentou no chão, acendeu outro cigarro e comecou a pensar no que fazer. Ela precisava agir, e rápido, antes que aquela outra pessoa  tomasse conta dela e fosse tarde de mais pra voltar a si. Tocou o celular, levantou e foi atender o número privado que ela tanto odiava, por não saber quem ligava. “Alô?” “Onde você esta?” “Em casa.” “Tudo bem?” “É, acho que sim.” “Vem pra cá, isso tá uma loucura daquelas que você adora pirar.” “Vou pensar, tchau”. Desligou o telefone e ficou olhando o cigarro queimar pensando se queria mesmo agir. Ela só queria ser adulta por uma noite, mas não conseguia. Chorou feito criança no canto da sala sentada no chão, não sabia exatamente o motivo, mas precisava chorar daquele jeito. O número privado ligou novamente e ela não atendeu, não sabia o que fazer e nem o que dizer. Levantou, se olhou no espelho e deu um grito “QUEM É VOCÊ?!”. O vizinho chegou a bater na porta pra saber se tinha alguém no apartamento, tamanha a altura do grito pro espelho. “Não”, respondeu sem abrir a porta com outro grito. Ligou o amplificador, começou a tocar guitarra, no meio da introdução, desistiu de tentar ser adulta. Trocou Smiths por Ministry, aumentou o volume e foi pro banho. Chorou um pouco sentada na banheira, mas passou. Saiu do banho, fez as unhas das mãos, se depilou com gilete na falta da cera que não tinha em casa, secou o cabelo e pegou a primeira roupa que viu no armario. Acendeu outro cigarro, se vestiu, arrumou o cabelo, se maquilou. Pegou o cartão de crédito na carteira, 100 reais, carta de motorista. Estava fechando a porta quando lembrou da latinha que ela carinhosamente chamava de “kit”, voltou pra buscar e aproveitou para pegar uma bolsa. Jogou tudo dentro e acrescentou o celular. Desceu de escada porque o elevador estava demorando e ela tinha pressa, mas parou dois andares depois, já que o pulmão de fumante não permitia descer mais que isso. Pegou o elevador e saiu correndo, mas ainda deu tempo de ouvir piada do porteiro nordestino dizendo que era dificil mesmo ficar em casa numa sexta-feira a noite. Abriu o carro, jogou a bolsa no banco da carona, ligou o som tão alto que não ouvia a propria voz cantando. Chegou na mesma balada de sempre, estacionou na mesma vaga, deu oi pra hostess que já era amiga e disse em tom de brincadeira que não havia nascido pra ser adulta. Na entrada escura, esbarrou numa transa sem compromisso que teve no outro final de semana, ou no outro mês, ela não lembrava, mal sabia o nome da menina. Deu oi, bebeu um gole do que tinha no copo e foi no bar. O barman sorriu e buscou a vodka com soda de sempre. Ouviu alguém falar no seu ouvido “eu sabia que você não aguentaria”, era a voz do telefone privado. Virou-se, o melhor amigo com aquele abraço de irmão. Pegou o copo e perguntou “Tem padê?” “Tenho.”, pegou a bucha e foi no banheiro. Esticou 3 carreiras, cheirou, acabou com o copo, limpou o nariz e saiu. Voltou no bar pra pegar bebida, dessa vez, queria algo mais. Um drink, talvez. Veio uma menina sorridente e perguntou o que ela queria. “Um drink, por favor.” “Qual?” “Qualquer um…”, pegou o copo, bebeu e pediu uma vodka. Ficou cuidando a menina que era nova no bar, com um olhar de admiração. Voltou pro banheiro e bateu mais três carreiras, dançou, acabou com outra box de cigarro, deu oi pro dj, conversou com os amigos. Bebeu mais, acendeu um cigarro do amigo, criou coragem e foi no bar. Chamou a menina e pediu um maço de cigarro e uma vodka. Quando a menina voltou, exclamou “E um beijo, também… anota aí!”. Beijou a menina, dançou, bebeu muito mais, cheirou e fumou compulsivamente como era costume. Só pagou a comanda quando acenderam as luzes por não haver mais clientes. Conversou com o caixa enquanto a menina acabava de trabalhar. Tirou os sapatos e jogou longe, entrou no bar e pegou outra vodka, bateu duas carreiras e sentou em um dos puffs com os amigos. Seguiram ali até quase 8h da manhã, quando a menina falou que iria embora. Pegou suas coisas, foi no bar buscar outro copo, deu tchau e saiu. Entrou no carro, deixou o som desligado, parou em um boteco com a menina pra conversarem, marcaram balada pra mesma noite – aquela mesma balada de sempre -, trocaram telefones e ela levou a menina em casa. Voltou dirigindo rápido, mas dessa vez, com o cinto de segurança que ela sempre esquecia de colocar. Ligou o radio no mesmo volume alto de antes, cantou aos gritos, fez o caminho mais longo que pode, estacionou na mesma vaga. Parou na padaria, comprou mais cigarro e uma garrafa de vodka. Entrou no elevador, apertou o 14° andar, abriu a porta, colocou a bolsa e a chave do carro no chão. Chaveou o apartamento, tirou a roupa e foi jogando pela casa, colocou a vodka na geladeira mas nao sem antes beber o ultimo copo do dia. Bateu a ultima carreira e olhou no relogio, quase 11h da manhã. Escovou os dentes e deitou, nua, suja, com a maquilagem borrada, respirando o ar da manhã e ouvindo o barulho da cidade acordar. Olhou pro teto do quarto, tentou pensar em algo, mas logo dormiu. Acordou com o melhor amigo batendo na porta. Reclamou da ressaca, da campainha que era alta, da cabeca que doia, do nariz que estava entupido e da dor no corpo inteiro. Colocou uma camiseta, uma calcinha e abriu a porta com a cara de sono e a maquilagem ainda borrada. Acendeu um cigarro, pegou um copo de vodka e disse que precisava comer. Como sempre, pediram uma pizza – daquela mesma pizzaria de sempre. Foi no quarto, se olhou no espelho e sorriu com ar de satisfacao. Sabia que aquela ali era ela e aquela era sua vida. E não adiantava tentar mudar.

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