realidade

A Verdadeira Realidade Brasileira

Andando pelas ruas da cidade em mais um dia de chuva, nesses que a gente fica de mau humor, uma única coisa me desviou a atenção.

Olhei em uma vitrine de uma loja de eletrodomésticos qualquer, e havia uma televisão de plasma, daquelas que custam uma fortuna, mais do que uma pessoa normal poderia pagar. Em algum canal de uma televisão a cabo, estava passando um desenho do Pato Donald legendado.

Até ai, tudo bem, nenhuma anormalidade. A não ser, pelo o mendigo olhando o desenho, fascinado e com o maior sorriso no rosto, desses que a gente enxerga e sente a felicidade da pessoa. Suas coisas estavam no chão e ele nem as cuidava, parecia hipnotizado pela televisão. De certo, nem entendia o que se passava no desenho.

Continuei meu caminho e passei reto, como todas as pessoas faziam e fingi ignora-lo. Porém, foi uma tentativa fracassada. Ele passou o resto do meu dia na minha cabeça, mesmo que eu não quisesse. Meu mau humor se foi e eu nem mais ligava pra chuva forte que eu pegara enquanto caminhava.

Aquela cena não saia da minha cabeça e eu fiquei o resto do dia pensando em quem seria ele. Se ele um dia teve alguma família, se morou alguma vez em uma casa, se teve roupa limpa e nova, se já se deitou em uma cama quente ao invés do chão frio que dormia agora, e se tinha comida de sobra para comer quando tinha fome.

Talvez ele fosse um advogado formado, ou alguma médico recém formado, que nunca que conseguiu emprego e veio acabou aqui, por causa dos percalços da vida.

Talvez tivesse sido um menino de rua, como muitos que se vê por ai, nas sinaleiras, pedindo alguma esmola, geralmente a mando dos pais para conseguir dinheiro para comprar mais cachaça, ou algo pior.

Mas desisti dessa possibilidade, já que no Brasil, menino de rua acaba virando traficante ou usuário de drogas. Talvez ele tivesse cultura e só não soubesse usar, porque se um mendigo usa sua cultura e inteligência, é taxado como burro, louco e vagabundo, queimado numa praça pública por filhinhos de papai, pois o que importa para as pessoas em sua volta é a imagem que ele passa, e não o que ele sabe.

Ele não tinha nada, apenas algumas roupas rasgadas e uma sacola que não devia valer quase nada. Poderia saber ler e escrever, mas fora mais uma  vítima de um sistema falido que não dá oportunidades iguais a ninguém, apenas privilegiando uma pequena casta da sociedade.

Certamente era ou poderia ser algum artista ou intelectual, mas como era morador de rua, devia passar os dias bêbado para esquecer o passado sofrido, e diminuir o sofrimento, ou pra nunca lembrar que o país em que nasceu e deveria acolhe-lo, sempre o esqueceu e o chama freqüentemente de bêbado e desgraçado.

Certamente aquelas legendas de desenho animado diziam mais coisas pra ele, que não conseguia ler, do que pra mim, que poderia ler aquilo com a maior tranqüilidade e entendia muito mais do que eu poderia entender.

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