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a visita do tédio e da insônia.

o tédio chegou de viagem. fazia tempo que ele não vinha me visitar, e quando aparecia, eram aquelas visitas bem rápidas que a gente mal nota que ele passou por perto. dessa vez ele chegou avisando que veio dormir comigo, com uma cara sem vergonha bem típica. já senti que ia vir bomba pra cima de mim e aproveitei pra acender um cigarro e descarregar o cinzeiro. NA MOSCA! ele não veio sozinho, demorou algumas horas, e a insônia, sua QUERIDA INSUPORTÁVEL mulher, bateu na porta. o tédio, sempre muito esperto, disse que nem sonhava que ela sabia da visita de hoje. sendo que antes do tédio chegar, eu tinha conversado com o depakote, a sertralina e a amiptrilina. o depakote me prometeu manter a bipolaridade bem longe, a sertralina disse que brigou feio com a depressão e que elas nem tinham chance de uma reconciliação, e a amiptrilina me deixou o medo. ela disse que andava meio desanimada e querendo ir dar uma volta, já que ela sentia que tinha parado de funcionar. pedi, implorei, me ajoelhei, mas ela só resolveu ficar quando eu chorei de desespero por ver ela partir. aí ela voltou e me prometeu uma noite de sono. foi só o tédio chegar que ela saiu correndo, no maior estilo maratonista. e eu com cara de “o que será que aconteceu”… só fui entender quando a insônia chegou. uma vez, há muito tempo atrás, elas brigaram muito feio e decidiram falar pro sistema nervoso central que ele tinha que escolher entre uma e outra, que nunca poderia ter as duas juntas. e desde então, elas nunca mais se encontraram. quando uma sente que a outra vai chegar, sai correndo. o depakote já entrou em pânico, a sertralina resolveu ir dormir e eu chamei o rivotril pra expulsar a insônia. mas ela chegou determinada a ficar. o tédio puxou uma cadeira e sentou do meu lado, enquanto a insônia conversava com meu coração pra entender o que estava acontecendo com ele. o coração, que é filho adotivo da insônia, resolveu ter uma conversa de mãe pra filho. disse que sentia saudade da mãe, que morria de saudade da vó, chamada nostalgia e que até da tia chamada depressão, as vezes ele sentia uma pontinha de saudade. a insônia queria saber mais e falou que ele era amado por todas elas, mas que elas haviam ido viajar e não sabiam a data do retorno. coração então, resolveu se abrir. tédio viu que o assunto tinha começado a ficar sério e foi logo fechando a cara. coração contou que havia subido uns degraus algum tempo atras e que agora andava nas alturas, e por isso, estava com medo de cair e se machucar. e como em quase todas as vezes que ele sobe uns degraus, por mais que sejam dois ou três, ele se machuca, resolveu desenvolver uma tática: havia começado a se preparar para cair da maior altura que já conheceu em toda sua vida. assim, estaria preparado para juntar seus pedaçõs quando chegasse ao chão. tédio deu um cutucão no coração, que olhando para a mãe, chorava desesperadamente. insônia disse ao coração que ele mal sabia ainda se ia cair. e foi então que coração respondeu, chorando de dor, que ele sempre caiu. e que durante uns bons meses, se permitiu não subir mais degraus, até agora, quando não conseguiu evitar. quando ele viu, estava nas alturas e não sabia mais o que fazer, por nunca ter aprendido a simplesmente descer degrau por degrau até chegar intacto ao chão. tédio ficou emputecido. não aguentava mais aquela história. começou a resmungar que coração sempre falava a mesma coisa e disse para a insônia que era hora de irem visitar outros amigos. tédio me deu tchau, prometeu voltar, mas disse não saber quando, e foi saindo. insônia ainda ficou um tempo. abraçou coração, tentou em vão, ensinar ele a descer, e então se despediu. também prometeu voltar e disse não saber quando. chegou na porta e olhou pra coração e eu, e me mandou cuidar do coração. prometi que faria tudo que eu pudesse, mas que não poderia fazer chamar o impossível, já que ele sempre se nega a me ajudar.
tédio e insônia foram embora, o céu começou a amanhecer. o depakote, a sertralina e a amiptrilina voltaram, meio tristes pela visita inusitada dos dois, mas felizes por saber que as vezes, eles nos fazem bem. e então, resolvemos dormir os 4, na mesma cama. coração continuou nas alturas, e se nega a voltar pro chão tão cedo, mesmo sabendo que pode cair outra vez.

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